quarta-feira, 25 de abril de 2012

Estado e Cultura

Caros amigos,
às vezes envio mensagens um tanto intempestivas e depois me preocupo.
Como esta aí, sobre o artigo do NIZAN.
Para mim elas funcionam como uma espécie de feeling, a transmissão sem controle de uma inquietação.
Mas podem não ser entendidas.
O que eu quis dizer, mesmo incomodado, é que o Estado Brasileiro mudou muito nesses 50 anos desde o Cinema Novo (abusiva e provocativamente usado pelo NIZAN no artigo). E nos últimos anos foi se firmando como um Estado com governos que buscam o desenvolvimento econômico e algum bem estar social. Desenvolvimento, ao meu ver, correndo atrás da lógica empresarial, principalmente a do grande capital, visto sem qualquer restrição ou, pelo contrário, incentivado. O Estado então assumiu a tarefa de abrir caminho para o mundo empresarial, enquanto pratica uma politica de reforço da economia popular via transferência de renda. Uma coisa ajuda a outra: o aumento de renda alimenta o mercado, o crescimento das empresas gera empregos.
Quando eu disse que "o diabo finalmente apareceu em nossa sala" eu quis dizer isso: a política do Estado hoje pensa com a cabêça dos grandes empresários. Vai se apagando de vez a imagem de um Estado getulista, propulsor do progresso. Numa mensagem no Facebook eu escrevi: "o capitalismo brasileiro, muito internacionalizado, é tão forte que os políticos podem brincar de fazer política" , isto é, brigarem, se corromperem, perderem o rumo, - já que o pensamento econômico dominante no Estado é ajudar o mundo empresarial a se mostrar poderoso e atuante. E é nesse mundo, o do progresso empresarial, que todos devem se acomodar, inclusive a cultura.
Aí está, para mim, a raiz da dificuldade em traçar uma politica cultural no país.
A tão falada e sentenciada dependência ao Estado já incomoda os governos. Governantes querem que o mundo da cultura se acomode, se vire, no mundo "vencedor" das grandes empresas brasileiras (ainda são brasileiras?).
Na mensagem sobre o artigo do Nizan, eu disse que isso vinha "para o bem ou para o mal".
Isso exibe uma facêta de minha visão sobre a história da produção cultural: sempre agimos nas dobras do sistema. O Estado, os governos, os empresários, nunca gostaram das idéias novas e do que as produções culturais invariavelmente expoem: as dificuldades das sociedades, dos individuos, da humanidade, os sonhos de um mundo melhor. Mas, apesar desse viés do poder, os artistas criaram, os pensadores pensaram e tanto os sonhos como as críticas nunca deixaram de revelar nossas inquietações.
Nas "dobras", artistas e pensadores sempre buscaram espaço para seus sentimentos e sua lucidez. E acabam sempre encontrando seus parceiros, seus financiadores, seus apoios, em meio à complexidade social que exibe alguma supremacia mas não consegue nunca a totalidade ( há excessões terríveis que a humanidade soube superar)
E não é diferente agora.
Mas para o Estado brasileiro, pouco importa essa capacidade reveladora e crítica da produção cultural.
Pode importar sim, para certos políticos e até para governantes mais sensíveis.
Não para o Estado, não para essas pessoas como governantes.
Importa o sucesso.
Mais uma vez não me entendam mal: não falo contra o sucesso, falo das preferências do Sistema.
Há belissimos filmes de sucesso e péssimos filmes "experimentais", miuras. E o reverso, péssimos filmes de sucesso e excelentes filmes de pouca bilheteria ( que nem sempre significa fracasso).
Para o pensamento politico dominante hoje, importa é o desenvolvimento empresarial.
Como já disse, o Estado compensa essa diretriz com uma política social de renda.
Esse, para mim, é o diabo que o Nizan colocou em nossa sala.
Compreender isso, acho eu, é importante para bem direcionarmos nossa luta pela fundamental diversidade do Cinema Brasileiro.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Cinema Brasileiro e nosso capitalismo tardio

Não se espantem com o que vou dizer. E que ninguém se ofenda, não estou fazendo julgamento moral:
O diabo finalmente entrou em nossa sala.
Em carne e osso.
Para o bem e para o mal.
O artigo do Nizan é ousado e lúcido: fala de um novo tempo, de um novo Brasil, de uma nova economia, de um novo Estado.
Gostemos ou não.
Vejam DO QUE EU ESTOU FALANDO:

NIZAN GUANAES
Cinema novo
Não é o que sua empresa ou marca pode fazer pelo cinema, mas o que o cinema pode fazer por elas
O CINEMA é um produto cultural estratégico para o novo Brasil, um país que vai naturalmente consumir mais cultura e exportar mais cultura.
O cinema é uma grande oportunidade para as marcas, para a imagem do nosso país.
Basta ver o que o cinema fez pelos Estados Unidos. Em muitos sentidos, o cinema fez os Estados Unidos.
Portanto, é preciso inverter a equação do cinema nacional. Não é o que o Brasil pode fazer pelo seu cinema, mas o que o cinema pode fazer pelo Brasil. Não é o que sua empresa ou marca pode fazer pelo cinema, mas o que o cinema pode fazer por elas.
Imagine James Bond trocando seu tradicional dry martini por nossa caipirinha e você conseguirá projetar o potencial do que estou falando.
Os filmes hoje fornecem conteúdos "transformers", capazes de ocupar todas as plataformas do mundo em que vivemos: das telinhas dos smartphones aos telões do Imax, on-line e off-line, interativas e contemplativas.
A multiplicação espantosa de canais e mídias, marca dessa era da comunicação, gera apetite infinito por conteúdo, e o cinema é o rei do conteúdo, a grande síntese de música, literatura, dramaturgia, artes plásticas...
Sempre digo para os diretores de arte da publicidade brasileira que é muito mais importante conhecer Aleijadinho do que as últimas obras do anuário. A direção de arte brasileira deve seguir a direção da arte brasileira. É o que nos dá identidade e legitimidade, alcance e profundidade. É o que nos dá alma.
Mas assim como a pesquisa científica precisa se aproximar do chão da fábrica para criar inovação relevante no Brasil, as artes também precisam se aproximar da propaganda e de outras linhas industriais de produção cultural para criar oportunidades de financiamento e ampliar o acesso ao público.
Misturar arte e indústria é algo que a moda sempre fez com muita competência, que a Itália faz com muita elegância, que os EUA fazem com muita desenvoltura. O Brasil precisa fazer mais isso. A propaganda e o cinema são parceiros naturais para esse casamento.
A Africa Rio é uma agência criada com esse fim, aproveitando a vocação natural do Rio de Janeiro de ser a Hollywood brasileira. Ela acaba de elaborar um modelo de projeção de público de filmes e de peças de teatro que busca trazer mais racionalidade e previsibilidade às ações de marketing dentro das produções artísticas.
O antigo merchandising evoluiu para o "product placement". Essa mudança de nomenclatura não reflete só o apreço publicitário por jargões e rótulos em inglês, reflete também uma evolução efetiva: a colocação de produtos num filme, numa peça de teatro ou de TV é operação cada vez mais sofisticada para engajar um consumidor de cultura cada vez mais disputado e soberano.
Vejam "Náufrago", com Tom Hanks: um funcionário da transportadora FedEx acaba isolado numa ilha deserta depois de um desastre de avião da empresa e transforma uma bola da marca Wilson no seu único amigo, com quem trava monólogos incríveis e que ele batiza de... Wilson. Simples, sensível, funcionou muito bem dramaticamente e fez horrores pela marca de produtos esportivos.
E tem ainda, nesse mesmo "blockbuster", o caso da FedEx, que viu um avião com sua marca cair logo no começo do filme. Propaganda negativa? Que nada! A última cena do filme traz Tom Hanks de novo vestido com o uniforme da empresa entregando um dos pacotes que diligentemente salvou do desastre anos antes. Mensagem que fica: a FedEx entrega seu produto mesmo se o avião cair.
É isso o que o cinema brasileiro pode fazer por nós, essa mágica dramática dos filmes que hoje se espalha por uma cauda cada vez mais longa de exibição (TV aberta, TV paga, vídeo on demand, DVD, downloads...).
O cinema brasileiro quase sempre foi dependente do governo e das leis de incentivo. Bem ou mal, foi o modelo que nos trouxe até aqui. A propaganda pode ser a terceira dimensão desse financiamento e uma garantia de final feliz para produções e para marcas.
NIZAN GUANAES, publicitário e presidente do Grupo ABC

terça-feira, 17 de abril de 2012

TV Cultura-2

Dia 17Abril\2012 Eu usei a palavra "resto" num contexto de politica do Estado. o Estado não deve direcionar a cultura. Por isso eu disse que as questões propriamente culturais devem estar a cargo das pessoas envolvidas com a TV: gestão e programação, direção e Conselho Curador, que devem estar abertos às críticas e sugestões públicas ( não obrigatoriamente acatar).

Essas conversas são importantes para mim. Leia com isenção o que vou dizer: não se pode misturar as críticas ( que não quero julgar aqui) com os posicionamentos com relação à politica dos governos do Estado. Para mim é importante que nenhum governo, seja lá de que partido for, direcione a cultura. Porisso é importante que os gestores culturais tenham uma relação aberta com a sociedade. Ou esses gestores conseguem responder aos anseios da sociedade, superar as críticas, - ou o governo, qualquer que seja ele, acaba intervindo. E posso dizer que para qualquer governo, numa democracia, é preferível que esses gestores acertem... Por outro lado, o acerto dos gestores vacina (até certo ponto, é claro) as entidades culturais dessa possibilidade de intervenção. Nesse caso, o desgaste da intervenção será do governo. Dialeticamente, no mundo moderno, não se pode conduzir uma política cultural na oposição: a cultura depende muito do Estado. É preciso, então, garantir o apoio do Estado e manter a independência...

TV Cultura

1- Dia 14Abril2012. Meus amigos, segunda feira, dia 16, tomo posse como membro do Conselho Curador da TV Cultura. É bom voltar ali, depois de tanto tempo. E emoção, afinal trabalhei ali com o Vlado (Vladimir Herzog) entre 1972 e 1974, também junto de amigos como o Fernando Jordão (diretor do programa, o "Hora da Notícia"), o Fernando Morais, Anthony Christo, Georges Bourdokan, tanta gente boa. Eu, apesar de já ser cineasta, com 3 longas, era "repórter especial", fazendo pequenos documentários para o telejornal diário. Eram filmes que revelavam um país diametralmente oposto ao exibido pela propaganda oficial da ditadura nas tvs. Por isso tivemos tantos problemas. Agora, na democracia, certamente os desafios são outros, queremos todos uma TV Pública forte, independente, ousada e desejada por todos.
2- Dia 17Abril2012 TV Cultura: No dia de minha posse como membro do Conselho Curador da TV Cultura ( na verdade, da Fundação Padre Anchieta, a quem pertence a TV Cultura), manifestação tranquila na porta e um bom debate no Conselho. Sem nos envolvermos em críticas à direção atual (João Sayad) a opinião geral (aqui é minha opinião sobre a reunião) foi a de que precisamos discutir a TV Pública. Nessa questão houve mutas mudanças nos últimos anos, inclusive com a criação da TV Brasil. E há a eterna questão: quem paga a conta.
Sinto que o Governo do Estado tem uma preocupação básica e justa, em dois níveis: primeiro o montante e o bom uso dos recursos repassados; depois a função socio-cultural da TV( e rádio), o reconhecimento público como um serviço cultural relevante, digno do orgulho de todo o povo de São Paulo. O resto, questão de gestão e de programação, é um assunto interno que cabe á direção da TV e ao Conselho Curador resolver. Isso é democracia. Tenho certeza de que é o que pensa e quer o Governo do Estado

sábado, 7 de abril de 2012

64: golpe anti-cultural

Em meu filme "TRAVESSIA" (LONGA E TAMBÉM SÉRIE EXIBIDA NA TV BRASIL), o bossa-novista CARLOS LYRA faz o retrato da cultura no Brasil antes do golpe de 64: O Brasil era uma pot~encia cultural. Nos anos 50, com a modernização do país (era JK), há um crescimento imenso dos movimentos de juventude e operários. E DEMOCRACIA como há muito não viamos ( eu era adolescente...). O resultado foi um desenvolvimento cultural fantástico. Tudo aconteceu: teatro renovado e revolucionário (Arena, Oficina, outros), Bossa Nova, Cinema Novo, manifestações transformadoras e reconhecidas no mundo inteiro. Toda uma geração se preparava para conduzir esse país para um futuro progressista, culto e livre mas o que os militares, incentivados pela direita nacional nos deram foi o atrazo, a violência institucional, a desorganização da sociedade e o fim do ciclo virtuoso iniciado na DEMOCRACIA da era JK.

quinta-feira, 22 de março de 2012

terrorismo

Imagens do atirador na França desmonta velhas tendências simbólicas. Cultura norte-americana dissiminou representação de inimigos como seres humanos feios, horripilantes. Na verdade se apropriaram, conscientemente ou não, das teorias lombrosianas, que afirmavam a capacidade de conhecer os bandidos pelas feições... todas horríveis, é claro. Lombroso, no fundo era racista e anti-social: os assassinos teriam a cara descuidada e sofrida das populações e dos povos mais pobres. Pois hoje vemos a foto do atirador, jovem, sorridente, simpático. A natureza do terrorismo deve ser encontrada em raizes históricas, políticas e culturais mais profundas, sem racismo e sem preconceitos culturais.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Cineastas e a Comissão da Verdade

Não há como não saudar esse mais do que expressivo número de assinaturas com nomes que representam, o que há de melhor no cinema brasileiro.
Mesmo num momento de intensa luta política em torno dos novos desafios do audiovisual no Brasil, os cineastas brasileiros mostram assim que estão também antenados com os desafios de nossa democracia. E que se colocam ao lado daqueles que lutam pela exposição da verdade sobre o período de 21 anos de ditadura militar e ao lado dos familiares de mortos e desaparecidos que lutam pelo reconhecimento e elucidação de suas histórias.
Acho que estamos de parabens.
João Batista de Andrade


05 de março de 2012



MANIFESTO DOS CINEASTAS BRASILEIROS

EM APOIO

À COMISSÃO DA VERDADE



Nós, cineastas brasileiros, expressamos a nossa preocupação com as frequentes manifestações de militares confrontando as instituições democráticas e o próprio estado de direito. Todos os cidadãos brasileiros têm o direito de conhecer o que foram os 21 anos de ditadura militar instaurada com o golpe de 1964. É preciso que a Comissão da Verdade, instituída para esclarecer fatos obscuros daquele período, em que foram cometidas graves violências institucionais, perseguições, torturas e assassinatos, tenha plenas condições e apoio da sociedade brasileira para realizar essa tarefa histórica. Repudiamos os ataques desses setores minoritários das Forças Armadas brasileiras, que de forma alguma irão obstruir as investigações que devem ser iniciadas o quanto antes. Estaremos atentos para que tal comissão seja composta por pessoas comprometidas com a democracia e com a verdade.



1. João Batista de Andrade

2. Roberto Gervitz

3. Lucia Murat

4. Manfredo Caldas

5. Luiz Carlos Lacerda

6. Jaime Lerner

7. Hermano Penna

8. Helena Solberg

9. David Meyer

10. Luiz Alberto Cassol

11. Renato Tapajós

12. Geraldo Moraes

13. Laís Bodansky

14. Luiz Bolognesi

15. Silvio Da Rin

16. Rosenberg Cariri

17. Toni Venturi

18. Joel Zito Araujo

19. André Kotzel

20. Paulo Morelli

21. Carlos Alberto Riccelli

22. Ana Maria Magalhães

23. Henri Gervaiseau

24. Zita Carvalhosa

25. Ícaro Martins

26. Rubens Rewald

27. Ruy Guerra

28. Daniela Capelato

29. Wolney Oliveira

30. Guilherme de Almeida Prado

31. Jorge Alfredo

32. Roberto Berliner

33. André Ristum

34. Carlos Gerbase

35. Omar Fernandes Aly

36. Renato Barbieri

37. Jeferson De

38. Alain Fresnot

39. Murilo Salles

40. Sergio Roizenblit

41. Gilson Vargas

42. Marcio Curi

43. Newton Canito

44. Isa Albuquerque

45. Rose La Creta

46. Rodolfo Nanni

47. Monique Gardenberg

48. José Joffily

49. Chico Guariba

50. Luiz Dantas

51. Tetê Moraes

52. Eliane Caffé

53. Walter Carvalho

54. Augusto Sevá

55. Eliana Fonseca

56. Daniel Santiago

57. Paulo Halm

58. Mariza Leão

59. Sergio Rezende

60. Jorge Durán

61. Miguel Faria

62. Jom Tob Azulay

63. Flavio Frederico

64. Tatiana Lohmann

65. Mauro Baptista Vedia

66. Claudio Kahns

67. Lauro Escorel

68. José Araripe Jr

69. Galuber Paiva Filho

70. Ricardo Pinto e Silva

71. Sergio Bloch

72. Ariane Porto

73. Cesar Charlone

74. Roberto Farias

75. Roberto Santos Filho

76. Oswaldo Caldeira

77. Ricardo Elias

78. Christian Saghaard

79. Pola Ribeiro

80. Tuna Espinheira

81. Lázaro Faria

82. Marina Person

83. David Kullock

84. Mara Mourão

85. Silvio Tendler

86. Sergio Machado

87. Cecília Amado

88. Edgard Navarro

89. Henrique Dantas

90. Cesar Cavalcanti

91. Dodô Brandão

92. Carolina Paiva

93. Guto Pasko

94. Carlos Dowling

95. Duarte Dias

96. Kleyton Amorim Marinho

97. Renato Ciasca

98. Rubens Xavier

99. Antonio Olavo

100. Luiz Carlos Barreto

101. Lucy Barreto

102. Paula Barreto

103. Bruno Barreto

104. Phillipe Barcinski

105. Cristina Leal

106. Tata Amaral

107. Eduardo Escorel

108. Alfredo Barros

109. Helena Ignez

110. Sergio Sanz

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Garra do Cinema Brasileiro atual

Há muito tempo não vejo tão aceso o espírito de luta do Cinema Brasileiro.
Faz bem participar desse momento, acreditar num futuro menos injusto para nosso cinema.
Acreditar na possibilidade de despertar a sociedade para a importância histórica e atual do Cinema Brasileiro.
E acreditar na possibilidade de continuar fazendo filmes, seja para o cinema, seja para a TV.
É preciso saudar a garra com exibida nas primeiras reações, como o exemplo de cidadania do Cariri.
E a lucidez de tantos cineastas cujos textos tenho lido nessas listas, como esse agudo artigo do Newton.
Num periodo de um ano muitas coisas foram mudando, devagar, quebrando resistências.
É uma onda que cresce, ensina, muda.
Um abraço a todos
João Batista de Andrade



On 28, Feb2012, at 5:29 PM, cariri.filmes wrote:




REPASSO

Texto do site CULTURA E MERCADO... para reflexão


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Lei 12.485 é liberdade de escolha para o cidadão
Newton Cannito | terça-feira, 28 fevereiro 2012


A Lei 12.485/11 é um marco para a cultura e, até mesmo, para a democracia brasileira. A lei aprovada em 2011 contemplará o público aumentando a diversidade da programação da TV por assinatura e gerará milhares de empregos em todo mercado cultural brasileiro.

Ela conseguirá isso com, entre outras coisas, o mecanismo de estabelecer uma cota mínima para conteúdo nacional em horário nobre. A lei define que os canais tenham 3h30 de programação brasileira por semana em horário nobre, sendo a metade independente.
Essa lei é a maioridade de nossas políticas públicas de cultura e nos colocou em briga de gente grande.
A Operadora SKY, oriunda da megafusão entre SKY e DirecTV, que deu ao magnata Murdoch 95% do mercado de TV via satélite no Brasil, acaba de lançar uma ampla campanha que visa conscientizar o cidadão contra a lei.

Primeira observação: não precisamos ficar “bravinhos” com a SKY por atacar os produtores independentes e o conteúdo nacional. Debates como esse são naturais na democracia e fazem parte do jogo democrático. Na verdade, deveríamos mesmo é comemorar. Poucas vezes tivemos um momento como esse, onde as questões de cultura ganham atenção do cidadão. Produtores independentes de televisão, Associação de Roteiristas, o Congresso Brasileiro de Cinema, a Abraci, Apaci e outras entidades começam a se manifestar. É um momento único de tentar se comunicar com a sociedade.

Segunda observação: Nossa comunicação deve ser com a sociedade. Não apenas com a “classe audiovisual”. Muitas manifestações convocam a classe audiovisual. Mas é muito pouco. E a “classe” nem precisa ser convocada. O mínimo que temos que fazer é convocar é a militância de todos os produtores de cultura brasileiros. Realizadores de teatro, música, circo, artistas em geral serão favorecidos por ter finalmente espaço televisivo. Mas isso ainda é apenas a base inicial. A comunicação que temos que fazer deve ser voltada à sociedade, ao público. Temos que deixar claro que não estamos defendendo um interesse corporativo. Estamos ao lado do cidadão.
Vale a pena analisar a campanha da SKY.

Ela começa com: Você é a favor da liberdade na TV por assinatura?
Depois afirma que “isso é o inicio de uma grave intervenção nos meios de comunicação e que uma agência reguladora terá o poder de controlar o conteúdo”.

Além disso, em outros momentos afirma que o assinante será obrigado a ver filmes brasileiros.
Como defesa os realizadores em geral estão acostumados a afirmar coisas fundamentais como o fato do conteúdo nacional ser importante para reforçar o senso de identidade nacional e impulsionar o desenvolvimento da indústria do audiovisual.

Isso é verdade, mas é pouco. Não podemos contrapor nacionalismo à liberdade. Liberdade é fundamental.
Temos que avançar no debate e esclarecer a população. E temos que começar respondendo a pergunta: você é a favor da liberdade na TV por assinatura? Sim! Somos a favor, sempre fomos.
Não podemos dar a uma corporação privada o título de defensora da liberdade de escolha do cidadão. Liberdade empresarial não é, necessariamente, liberdade cidadã.

Temos que tomar um grande cuidado: não pode parecer que é cineastas x público. Já tivemos momentos que os cineastas foram assim, no passado. Isso passou. Mas parte pequena do público ainda vê os cineastas como gente chata que quer impor seus filmes ao público. Temos que mostrar que estamos noutra, faz tempo.

A SKY não pode se colocar como defensora do interesse público. E tratar os realizadores como se estivéssemos presos a interesses corporativos. Não é verdade.

Temos que ter claro que o principal objetivo da lei não é dar empregos para cineastas. Nisso a gente se vira. O principal objetivo da lei 12.485/11 é o cidadão, não a classe audiovisual. Ela serve principalmente para aumentar a diversidade de conteúdos para o cidadão comum. Queremos dar mais LIBERDADE DE ESCOLHA para o cidadão.

Queremos conteúdo brasileiro justamente para que o público tenha mais diversidade. Não queremos tirar esportes, nem nada. Isso já tem bastante. Queremos mais. Queremos, por exemplo, ver a TV paga fazendo ficção de qualidade, tal como faz a nossa maravilhosa TV aberta, aumentando a quantidade de entretenimento de qualidade disponível ao público.

Nosso objetivo é apenas impedir a imposição privada de apenas um tipo de conteúdo e aumentar a diversidade de opções para o público.

Lembrei-me agora das linhas de �¿??nibus. Se não tiver algum poder público organizando a rede de transporte (que tem operadores privados) os empresários do setor operam apenas as linhas mais rentáveis. Nesse caso, vastos setores da população ficariam desamparados, sem transporte.
A democracia é o poder da maioria, mas também o direito das minorias. Cabe ao Estado Democrático garantir que a diversidade de gostos e interesses seja contemplada. Se o mercado ficar sem regulação ele vai investir apenas na área mais rentável e prejudicar o interesse público. A TV, por exemplo, poderia produzir apenas transmissões esportivas que são mais rentáveis, pois tem menos investimentos, e não investir em dramaturgia. Isso prejudica o interesse do público.

Isso não é esquerdismo e/ou intervenção estatal à la Fidel Castro. Foi o PSDB que criou o modelo das agências reguladoras e o PT deu sequência. É natural no regime democrático.
Temos que ter a coragem de responder de frente a acusação da SKY: “isso é o início de uma grave intervenção nos meios de comunicação e que uma agência reguladora terá o poder de controlar o conteúdo”.

Sempre desviamos dessa questão, mas chegou a hora de debater claramente a diferença entre regulação e censura.

A censura é para excluir conteúdos. A regulação é para aumentar a diversidade de conteúdos. É oposto. A regulação serve para diminuir a censura privada. Muitos falam de censura estatal, mas poucos falam da censura privada, que acontece diariamente. A regulação é anti-censura.
Temos que discutir claramente com a sociedade que a democracia se faz com Estado forte. Com Estado fraco o interesse privado se impõe completamente e a população fica refém do interesse econ�¿??mico de pequenos grupos de biliardários. O Estado democrático forte tem que “tentar controlar” o interesse privado.

Eu digo “tentar controlar”, pois o fato é que o Estado no Brasil é fraco. A SKY diz que a Ancine vai “ter o poder de controlar o conteúdo”. Alguém realmente acredita nisso? Alguém acredita mesmo que a Ancine é assim tão poderosa? É apenas uma lei que diz que algo como 30 minutos diário deve ser de conteúdo nacional. É pouco para caramba. E a Ancine não escolhe qual conteúdo será. A TV escolhe. E todo o resto é “controlado” apenas pelo interesse comercial e é natural e saudável que seja assim. O Estado não vai ter esse poder todo. Vai apenas fazer uma pequena intervenção visando ao interesse público e ao aumento da diversidade. Convenhamos que é algo bem humilde. Não precisamos ter medo de defender um Estado forte na Politica de Comunicação do Brasil de hoje. Até porque o Estado é muito fraco no setor. Ele é todo controlado por interesses privados. Ter um pouquinho de regulação pública não vai ser assim tão ditatorial.

Além disso, temos que ter claro que o Estado não quer acabar com o mercado. O empreendedorismo privado é uma força fundamental. A agência reguladora visa apenas evitar seus abusos. Nem sempre o “Estado” está certo. O Estado também é feito por seres humanos que podem errar e/ou defenderem apenas seus interesses privados. Mas também nem sempre o poder privado está certo. Ninguém é perfeito nesse jogo. Mas a briga entre os dois é vantajosa para quem realmente interessa: o PÚBLICO. A população. O Cidadão. O cidadão só tem a ganhar com essa briga, pois poderá ir opinando em suas brechas e intervindo. Se o Estado neutralizar o privado ou o privado neutralizar o Estado entramos na ditatura. Seja a ditadura do Estado, seja a ditadura das corporações privadas.

Além disso, um dado final: o fato é que o público de TV paga quer conteúdo nacional. Em especial de ficção. O Canal Viva, por exemplo, que reexibe as novelas da Globo tem dado ótimos índices de audiência. Eu estou convencido que um dos motivos da TV paga ter demorado tanto para emplacar no Brasil foi à ausência de conteúdo nacional e regional. Todos falavam do preço da assinatura, mas isso é parte da verdade. Basta ver o altíssimo índice de pessoas que assinavam TV paga apenas para assistir TV aberta com sinal melhor e de pessoas que assinavam TV paga e desistiam, pois não gostam de sitcoms americanas. A TV paga americana foi implantada com uma politica de criação de canais independentes, como Discovery e HBO. A TV paga brasileira foi apenas com canais ligados à mesma programadora, com pouca diversidade de proprietários de canais, e sem produção local e independente. Foi assim que se afastou do público e temos baixíssimos índices de assinantes.

Hoje temos a oportunidade de recomeçar. A população subiu seu poder aquisitivo e está dando uma nova chance para TV por assinatura. Mas vai querer conteúdo nacional. Torço para que a SKY e outras empresas do setor foquem em realmente conquistar o público e percebam o potencial da produção cultural brasileira para ajudá-las nisso. Mas se eles não perceberem azar. Vamos seguir em frente e mostrar ao PÚBLICO, ao espectador que essa Lei visa melhorar a qualidade e a diversidade sua programação! Nesse sentido considero louvável a iniciativa do Congresso Brasileiro de Cinema (CBC) de entrar em contato com Associações de Defesa do Consumidor. Isso é fundamental e é isso o caminho que devemos seguir.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

burocracia X cultura

Vocês querem cultura? - toma verba! - Você pegou verba? - toma problemas!
Dá pena ver velhos batalhadores de ONGs às voltas com a rigidez absurda dos controles de despesas. Tenho ouvido muitas pessoas rezando para nunca mais receberem apoios governamentais: ficam, depois, anos às voltas com essa rigidez burocrática que transforma todos em bandidos, enquanto os bandidos de fato estão soltos numa boa por aí. Estaria esgotado o modelo de parcerias na política cultural? - ou o que se passa é simplesmente a lógica apavorada dos funcionários que temem aprovar qualquer coisa e serem, eles, cobrados depois? - Não seria bastante uma análise do resultado, se o projeto foi realizado ou não, se foi realizado com bom ou mal aproveitamento? A verdade é que tudo isso vai destruindo nossa politica cultural, transformando ativistas culturais e artistas em burocratas apavorados. O Estado, de parceiro, incentivador, torna-se algoz.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

cinema brasileiro X cinema norte-americano

Vi, pelo Canal Brasil, um programa sobre as possibilidades e problemas do cinema brasileiro atual. Falas do Paulo Emílio, Calil, Manoel Rangel. Será que entendi mal?- alguém disse que erramos, que a luta não deveria ser contra o cinema norte-americano pois as pesquisas mostram: quando subimos eles sobem também! - a coisa não é assim. Não estamos mais no tempo do "abaixo o imperialismo" mas é preciso sim lutar contra o poder econômico e político do cinema norte-americano que é capaz de nos sufocar a todo instante e foi capaz de criar, entre nós, brasileiros, seus próprios defensores, divulgadores tão ardorosos que sentem dificuldade de falar do... digamos assim... "cinema" brasileiro. Há sim uma batalha também no campo ideológico e estético: o cinema norte-americano massifica a idéia de que seu cinema é O CINEMA, com sua violência, idolatria, efeitos especiais, super-produções. E a politica brasileira de cinema atual esquece isso, esquece que essa batalha é fundamental: as cinematografias devem se impor ao seu público, em seus paises, com sua originalidade, quebrar essa impoosição que semnpre nos joga para o desimportante, para o trivial, para a bobagem dos filmes sem cara e sem coração que buscam o público da pior maneira possível: tentando se apresentar pior do que ele.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

cinema brasileiro

artigo lúcido do Marcos Manhães.
Política de Cinema erra absurdamente achando que pondo dinheiro nas produtoras que fizeram um sucesso garantem outro sucesso.


Assunto: [CINEBRASIL] ANCINE:renda do cinema brasileiro encolhe 30% em 2011

Responder A: cinemabrasil@cinemabrasil.org.br

Como tínhamos afirmado, quem fez 143 ou 141 milhões de espectadores
foi o cinema em geral, não o cinema brasileiro, como foi dado
no jornal O GLOBO e nas redes sociais. VEJAM ABAIXO EM #####.

A ANCINE agora dá os dados oficiais. 143,9 milhões de espectadores
para os filmes de todas as nações, em cinemas do nosso país (onde
historicamente entre 80 e 85% de filmes norte-americanos, ela não
deu este detalhe). Destes, em 2011, apenas 12% (DOZE POR CENTO !)
foi ocupação com filmes brasileiros, menos de 18 milhões de
espectadores, com uma renda 30% abaixo da renda dos filmes
brasileiros em 2010.

Algo precisa ser feito urgentemente. Antes era o filme brasileiro
de produção independente (sem que o agente econômico seja a TV),
que precisava ser salvo, MAS AGORA, é o cinema brasileiro em geral
que precisa ser salvo. A renda encolheu 30%. Isso é grave.

Também não é fornecido oficialmente que, dentro destes
cerca de 12% de ocupação do cinema brasileiro no mercado de
distribuição em salas de exibição comerciais, predominam (no
que tange a bilheteria) - até última informação que temos - aí
cerca de 90% de filmes feitos com coprodução ou algum tipo de
contrato determinante com a TV. O que resulta em reservar ao
filme independente apenas cerca de 1% do mercado de salas.

Quando a ANCINE foi criada, a ocupação beirava os 10% e numa
proporção majoritária de filmes de produção independente(da TV).
HOJE, NEM COM A FORÇA DA TV, a bilheteria está crescendo, mas
sim despencando 30% de um ano para outro. Em 2003 teve um pico
acima de 20% mas foi caindo de novo. NO QUE a TV está errando
nas suas parcerias com as equipes brasileiras, roteirisas e
diretores que se filiam às produtoras inDEPENDENTES ?

É PRECISO VER ISSO.

Resumo da Ópera:
A ocupação cresceu em 10 anos 2 pontos percentuais, ou seja
de cerca de 10 para cerca de 12%. De 2010 para 2011 caiu 30%.

NO QUE, os editais públicos, ao apostarem como têm apostado,
em filmes ditos "de mercado" TÊM ERRADO SOLENEMENTE, não
garantindo que o mercado de filmes brasileiros se expanda,
ao contrário, gerando uma queda expressiva como a de 2011?

A resposta está em filmes como DIVÃ, CILADA.COM, AVENTURAS
DE AGAMENON, DE PERNAS PARA O AR, SE EU FOSSE VOCÊ 10, são
vários os exemplos de filmes assim em que os editais têm
colocado dinheiro PÚBLICO. O Público até ainda vai, mas ele
não se encanta com filmes que sempre lhe dão MAIS DO MESMO.

Não adianta o FSA priorizar empresas que já fizeram mais
de 1 milhão de espectadores, porque isso não tem garantido
nada, nunca garantiu em lugar nenhum do mundo. É mais do
que sabido que la nos EUA, mesmo os grandes estúdios como
SONY, DISNEY, FOX, etc, produzem 90 fracassos para cada
10 sucessos. Fazem cerca de 400 a 600 filmes por ano nos
grandes estúdios (os indies fazem entre 1000 a 1500)
e só um em cada 10 conquista o público. E conquista na
hora em que oferece a ele aquilo DO QUE ELE PRECISA,
que é *aquilo que ele ainda não tem*. As pesquisas que
as distribuidoras e financiadoras do cinema brasileiro
fazem estão MAL FORMATADAS; é preciso ter coragem e
sabedoria para elas admitirem isso, mas estão. O que
se tem de AFERIR não é "o que mais você gosta?", mas
"o que você não tem visto que gostaria de ver?", e,
diga-se de passagem, NEM ISSO será garantia de coisa
alguma.

"APOSTAR NO TALENTO DE PROFISSIONAIS DO CINEMA, tanto
de roteiristas (na escolha de bons roteiros, por que
não procurar roteiros prontos de profissionais
experientes num banco de roteiros?) como de DIRETORES
(que podem ser roteiristas, sem pruridos corporativistas,
pelamordedeus), quando apresentam projetos independentes
e SE DAR AO DIREITO DE ERRAR" - deve antes tarde do que
nunca ser o lema das financiadoras (editais, produtoras
"industriais", patrocinadores diretos, etc) no BRASIL.

Nos países desenvolvidos, como EUA, França, é assim.
Na França, há algum tempo atrás, havia uma FILA,
acreditem se quiserem, e todo projeto era financiado
pelo Estado, na ordem cronológica. Nem se quer isso.

A SUGESTÃO:
DAR ao cineasta brasileiro a chance de fazer o seu
filme. Ao iniciante a chance de fazer o seu curta,
sem julgamentos subjetivos de se isso vai ser bom
ou mal para o público ou para a crítica. Deixa o cara
fazer, e o público e a crítica vai aprová-lo ou não.

Ao veterano, àquele que fez muito curta (e curta em
35 mm ou câmera profissional HDCAM algo assim, com
equipe mínima com DRT, registro profissional, com
CPB, CRT obtido na ANCINE, tudo, para que mostre
que o cara conhece o babado, a "indústria", que sabe
lidar com a engrenagem do Cinema), DAR LHE CRÉDITO,
pois é um profissional de credibilidade que não é
digno de crédito nem do Estado.

E não falo só de veterano em curtas, mas de veterano
em longas também. Quantos deles estão reclamando de não
estarem encontrando apoio para fazerem o filme deles?
Nélson Pereira do Santos não o único. Olhem pros lados.

O público é quem melhor aponta se o cara está lhe
dando aquilo que ele precisa. Testes de público, com
o público *do filme*, e um ajuste fino, se necessário
antes do lançamento nas salas. Um bom método. Ou,
se o grande público rejeitar, lançar só para um gueto
ou nem lançar, assumir o prejuízo como os americanos.
Em cada 10, um conquista o público; 9 são "flops".

HOJE, como já disse Roberto Farias, todo o benefício
vai para o DISTRIBUIDOR ESTRANGEIRO (que recebe 70%
de desconto na transferência de divisas, se investir
NO FILME QUE ELE QUER) e para as EMPRESAS DE OUTROS
RAMOS FORA DO CINEMA (Estatais do petróleo, disso e
daquilo, e grandes empresas privadas, recebendo de
100 a 125% do que investiu de seu imposto, de volta
numa peça de publicidade para a marca delas, que é
o filme em que elas decidiram investir) e o CINEASTA
é tratado como se não soubesse nada de nada, com
editais e contratos draconianos, sempre duvidando da
sua capacidade de filmar, de poder acertar com o seu
público. ESTE É UM ERRO BÁSICO, QUESTÃO DE FUNDO QUE
FOI ABANDONADA, a partir das diversas oportunidades
pulverizadas com glamurizações e purpurinizações em
co-produções atraentes, que pelo menos têm cumprido
a missão de dar empregos ao setor, MAS, por tremendo
equívoco, o de não valorizar O ERRO do profissional,
tem se furtado de conhecer o ACERTO do profissional
em algumas de suas obras. Só errando é que se acerta.
INVESTINDO NO CINEASTA, OU NA DUPLA DIRETOR/ROTEIRISTA
é que vamos reverter este jogo.

Achar que distribuidoras estrangeiras escolhem melhor
filmes é uma ingenuidade. Há distribuidoras brasileiras
que acertam, como a Downtown, mas que às vezes também
erram feio, priorizando o sucesso de mais de 1 milhão
para colocar na carteira dela, e conseguir sobreviver
em meio a critérios equivocados na raiz do problema.

As distribuidoras brasileiras precisam ERRAR MAIS.
E as estrangeiras, *se quisessem mesmo o bem do cinema
brasileiro*, aplicavam aqui o que suas matrizes aplicam
lá: apostariam em quantidade, para descobrir qualidade.

Não é uma crítica à ANCINE, mas uma avaliação GERAL, de
um PARADIGMA errado que assola o cinema brasileiro, nas
estatais e similares como no financiamento de longas da
RIOFILME, editais públicos de toda natureza, e o crivo
de empresas privadas sobre filmes, de acordo com seus
interesses empresariais e previsões erradas de sucesso.

Justificam que o ano de 2011 foi atípico porque não
ocorreram os fenômenos de público, como o TROPA DE
ELITE 2 e NOSSO LAR, de em 2010, ou TROPA DE ELITE e
DOIS FILHOS DE FRANCISCO em outros anos. Mas então o
resultado do mercado não é fruto de um planejamento?
É fruto de existirem fenômenos? É disso que falo aqui.
O Tropa de Elite, o primeiro, era um BO no início,
apostaram nele, e ele trazia o que o povo não tinha
ainda experimentado, daí explodiu. Outro fenômeno
parecido foi o primeiro TAINÁ. Foram os primeiros
filmes do padre Marcelo Rossi. Não dá para prever
o que o público vai gostar. Gostou do Nosso Lar,
mas nem tanto dos outros que "embarcaram no filão".


O Brasil precisa produzir 200 filmes por ano, mas
filmes dos quais as financiadoras e distribuidoras não
"têm garantias" de sucesso, PORQUE NUNCA TERÃO, isso
já se comprovou ser uma falácia, gente. Precisa se
abrir à CORAGEM, ao TALENTO, à EXPERIÊNCIA do Cineasta
Brasileiro que quer fazer uma PRODUÇÃO INDEPENDENTE,
sem crivos artísticos de profissionais da TV ou de
profissionais do Velho Cinema ou do Cinema Novo.
Claro, destoando aqui um pouco do Santeiro, que
prega que TODOS os filmes devem ser feitos, concordo
que haverá sempre uma SELEÇÃO, por conta da escassez
de RECURSOS FINANCEIROS, mas nunca com o critério
equivocado que tem pautado FSAs e congêneres, de
se "MEDIR" o tamanho da "garantia de sucesso". ISSO
NÃO EXISTE. Empresas que fizeram MILHÕES de ingressos
no passado, como a produtora do Barreto, não emplacam
sucessos no presente. Isso não quer dizer que se
Bruno Barreto apresentar um projeto de filme, não
deva ser levado a sério. Não é isso. Deve, ele é
um cineasta independente, e se fizer com a produtora
do pai, pouco importa, deve ser financiado sim. O
QUE ESTÁ ERRADO é dar uma nota lá em cima "porque
a produtora é do Barreto", ou do Fernando Meirelles
ou deste ou daquele produtor que em certo momento
fez mais de um milhão de espectadores. ENFIM, fiquem
com a matéria da UNIVERSO ON LINE - UOL e confiram
os dados oficiais. E rebatam, se puderem.

Grande Abraço. Sorte para nós!

Marcos Manhães Marins

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Memórias de um combatente das imagens

Uma filmagem de ação policial: Em 1972, estávamos começando nosso "Hora da Notícia" na TV Cultura (com Vladimir Herzog, Fernando Jordão, Fernando Morais e outros bravos amigos). O "rádio escuta" (*fica escutando notícias para a pauta) me disse que haveria uma "Operação tira da cama" naquele dia. Eu já havia visto: um horror fascista: policiais armados entravam nas favelas à noite, com holofotes, cães, arrebentavam as portas dos barracos, tiravam todo mundo de lá, pedindo documentos. Onde estavam os cinegrafistas filmando: entrando junto com a polícia.
Então eu chamei um cinegrafista que já havia participado dessa ação e disse: vai lá e filma do jeito que você sempre fez. Ele foi, filmou tudo ao lado da polícia. Eu fui com minha equipe no dia seguinte de manhã e passei a ouvir os moradores, os "invadidos". Eram relatos impressionantes inclusive de crianças, o medo das armas, dos cães, os holofotes nos olhos... Pois esses depoimentos, na montagem, cobriram as cenas de violência. Em 1972, com Médici no poder, ver isso na TV nos deixava arrepiados. Essa postura desenhava o que começávamos a elaborar, uma espécie de cartilha de oposição ética e estética à ditadura: considerar que a autoridade na informação não era a autoridade institucional, mas aqueles que vivem a situação. Essa visão marcou nosso trabalho, todos os meus filmes, desde 1972 até a intervenção no programa, em 1974, quando saímos todos, expulsos da TV. Tenho muito orgulho do que fiz, mas a ditadura aplicou sua violência sobre o melhor de nós: Vlado Herzog.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Edital do BNDES

ACHO ABSURDO ISSO
Do Edital do BNDES.
É difícil brigar com possíveis patrocinadores. Mas parece que não tem jeito.
Logo abaixo, minha opinião, só uma opinião de um cineasta brasileiro:

Texto do Edital:
Os projetos dos gêneros Ficção e Animação deverão estar classificados em 2 (dois) Grupos, da forma a seguir:
Grupo I – projetos que priorizem a busca de resultados econômicos sem prejuízo da observância da qualidade artística e técnica.

ou

Grupo II – projetos que priorizem a busca de reconhecimento artístico e técnico no mercado internacional, sem prejuízo da observância do equilíbrio econômico.

Os critérios de seleção para cada um dos grupos está descrito no item 5 adiante (“Critérios de Seleção”) e a opção pela classificação do Projeto será feita pela Proponente no momento da inscrição.

___________________________________________

O valor total do investimento a ser realizado pelo BNDES nos projetos selecionados obedecerá aos seguintes limites máximos:

I - em projetos do gênero Ficção e Animação:

a) R$ 7.000.000,00 (sete milhões de reais) para projetos do Grupo I;

b) R$ 5.000.000,00 (cinco milhões de reais) para projetos do Grupo II.

_____________________________________

O valor do investimento a ser realizado pelo BNDES nos projetos selecionados obedecerá aos seguintes limites máximos individuais:

I - em projetos do gênero Ficção e Animação:

a) R$ 1.500.000,00 (um milhão e quinhentos mil reais) na categoria Produção do Grupo I;

b) R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) na categoria Produção do Grupo II;

Minha opinião:

Sempre fui contra criação de guetos, desde a Embrafilme: o tempo todo tentavam criar a divisão entre "cinema comercial" e "cinema autoral"
Seria possivel perguntar então por que não destinar todos os recursos para o cinema autoral, já que esse definitivamente não tem recursos.
Vejo que governo, com suas entidades e empresas, brinca de fazer política de cinema.
Quando o setor se movimenta, respondem assim, sem maiores responsabilidades, de forma grosseira.
"prestígio internacional"!!!
Quem disse que "ser autor" é procurar p´restígio internacional?????
E quem disse que autor não quer também sucesso na bilheteria?
E quem disse que os filmes escolhidos, nos últimos anos como "comerciais" fizeram bilheteria?
Ora bolas.
O que nós queriamos e acho que queremos é uma política ampla, responsável, que garanta uma grande diversidade da produção e que agregue a tradição, a experiência, a experimentação e também o negócio. Queremos que os investimentos incentivem todos os projetos pelo seu valor próprio, que apostemos na criatividade, na vocação. E que, paralelamente, haja muito investimento na distribuição e na ampliação da rede de exibição no país.
Eu pelo menos não quero ser cidadão de segunda classe, como tenta o BNDES
Em tempo: Ouvi muito um comentário: BNDES é difícil demais, nem vale a pena, se o projeto não é comercial, se seu filme anterior não foi bem de bilheteria.. Acho um absurdo esse comentário e absurdo maior a possibilidade grande dessa frase revelar uma verdade.
É um desrespeito.
Se quiserem bancar "cinema comercial" por ser comercial, abram uma carteira de financiamento ou então invistam nesses filmes, como associados!- e ganhem seu dinheirinho com eles!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

campanha "vá ao cinema"

Telecines, nos institucionais "vá ao cinema" deveriam acrescentar:"Vá aos cinemas ver os filmes norte-americanos!" - propaganda do cinema norte-americano sempre tratou cinema brasileiro como gênero, -e ruim.
A propaganda do cinema norte americano não tem como incorporar o Cinema Brasileiro. Pois a vida inteira repisaram na formação do público que "cinema é aquilo que eles fazem". O resto, segundo eles, é uma coisa esquisita que parece cinema mas não é. Cinemas de outros povos por isso são estrangeiros em seus próprios paises.
Na campanha dos Telecines, nem rastro de qualquer filme brasileiro. Ali estãso os super-heróis, os astros e estrelas, os super-espetáculos, como sempre.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

cinema brasileiro

Belo artigo do Carlos Alberto Mattos:
407 horas de cinema brasileiro
por Carlos Alberto Mattos




A Programadora Brasil, distribuidora de filmes brasileiros em DVD para exibições não comerciais, vinculada à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, completou em 2011 cinco anos de existência, com um público superior a 500.000 espectadores. Eles publicaram um catálogo geral do acervo e me convidaram para escrever o texto de apresentação. É um tanto mais longo que a média postada aqui no blog. Vamos a ele:




Poucas cinematografias no mundo podem se orgulhar de ter, numa mesma coleção de DVDs, um acervo amplamente representativo como o da Programadora Brasil. Com uma vantagem que não é pequena: eis uma coleção que, ao invés de ser vendida a preço de ouro em livrarias chiques, é disseminada a custo baixo em cineclubes, escolas, espaços culturais, bibliotecas e espaços correlatos país afora, do Amapá ao Rio Grande do Sul.

Uma cinemateca ambulante, pode-se dizer. Os números são expressivos: em 255 discos (ou programas), encontram-se 825 títulos, entre curtas, médias e longas-metragens. Totalizam 407 horas de cinema. Para assistir ao catálogo inteiro, um espectador precisaria dedicar 50 dias em jornadas integrais de oito horas, sem intervalos. Mas como essa não é uma experiência das mais saudáveis, os programas vêm formatados para se conhecer, com calma e esclarecimento crítico, os momentos mais interessantes dessa aventura que é o cinema brasileiro.

Ela começa, para a Programadora Brasil, em 1913, com os fragmentos que restaram do pioneiríssimo Os óculos do vovô, que o português Francisco Santos rodou em Pelotas (RS). É o mais antigo trecho de filme de ficção nacional a chegar aos nossos dias. E termina, por ora, com uma seleção de curtas realizados em 2010. A partir de 1952, todos os anos estão contemplados com alguma produção, e às vezes com dezenas. Assim se torna possível apreciar a evolução da linguagem, das temáticas e das formas de produção mediante a simples consulta aos filmes e aos textos críticos que acompanham cada programa.

Além de Francisco Santos, outros exploradores de caminhos no nosso cinema têm obras na coleção. É o caso de José Medina e Gilberto Rossi, parceiros e sócios em São Paulo, cujos trabalhos de ficção e documentário compõem o fascinante programa intitulado Uma sessão de cinema dos anos 20. Uma curiosidade sem preço é Macaco feio… macaco bonito, de Luiz Seel, raro exemplar de cinema de animação dos anos 1920, que sobreviveu às agruras do tempo e do descaso. Ele complementa o longa O Saci, de 1953, que pensava a nacionalidade no âmbito da diversão infantil e é considerado o primeiro filme feito para esse público no Brasil.

Luiz de Barros, Humberto Mauro e Mesquitinha são nomes que personificam o cinema feito no Rio de Janeiro na década de 1930, situando as bases de uma prática mais ou menos regular. Uma dessas vertentes foram as muitas centenas de filmes produzidos pelo Instituto Nacional de Cinema Educativo entre 1936 e 1966, dos quais marca presença aqui a coletânea Brasilianas I, com clássicos imortais de Humberto Mauro. Além do não menos modelar A velha a fiar, precursor do videoclipe entre nós.

Obras-primas de Alberto Cavalcanti, Lima Barreto, Jorge Ileli, José Carlos Burle, Carlos Manga, Watson Macedo e Anselmo Duarte trazem à Programadora Brasil a era dos estúdios, quando o cinema brasileiro investiu no projeto de industrialização segundo o modelo norte-americano e europeu. As chanchadas Nem Sansão nem Dalila e O homem do Sputnik, bem como os dramas Também somos irmãos e Amei um bicheiro, são culminâncias da produção da Atlântida Cinematográfica, enquanto O cangaceiro, de Lima Barreto, foi o maior sucesso da Vera Cruz e também a primeira forte inserção do cinema brasileiro no cenário internacional. Os estúdios da Maristela, por sua vez, estão bem representados por Simão, o caolho.

Inspirado no star system dos estúdios americanos, o cinema brasileiro dessa fase também cultivou seus astros e estrelas. Eles são em grande parte responsáveis pela imensa repercussão popular das comédias que protagonizavam. Em diversos DVDs do catálogo é possível deliciar-se com as performances impagáveis de Oscarito, Grande Otelo, Dercy Gonçalves, Norma Bengell, Eliana, Cyll Farney, Odete Lara, entre muitos outros.

O panorama se adensa nos anos 1960 com a profunda renovação imposta pelo Cinema Novo. Surge uma consciência de cinema independente e autoral, que vai marcar as décadas seguintes. São filmes fundamentais dessa transição os documentários Aruanda e Arraial do Cabo, presentes em programas diferentes da coleção. O chamado Cinema Novo baiano, que teve papel central na virada (em muitos sentidos) dos anos 1950-60, tem aqui a maioria de seus expoentes: Bahia de Todos os Santos, Um dia na rampa, A grande feira, Tocaia no asfalto e Deus e o diabo na terra do sol. Sem falar em O pagador de promessas, baiano de empréstimo com o qual Anselmo Duarte e Oswaldo Massaini trouxeram para o Brasil a Palma de Ouro de Cannes.

Essa redescoberta em profundidade do país foi protagonizada também pelos documentários produzidos por Thomaz Farkas e dirigidos por uma constelação de celebridades do cinema do real. Deles o usuário da Programadora pode desfrutar o programa “Brasil verdade”, que reúne quatro médias-metragens de enorme importância, lançados juntos nos cinemas em 1964. Outros filmes dessa linhagem compõem o programa “Caravana Farkas – religiosidade e cultura popular”.

O Cinema Novo é fartamente ilustrado na coleção por filmes de Glauber Rocha, Paulo César Saraceni, Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Domingos Oliveira, Roberto Pires, Arnaldo Jabor, Gustavo Dahl, Maurice Capovilla e Leon Hirszman. Algumas das cenas mais marcantes da história do cinema brasileiro estão nesses discos, com destaque para a câmera de Dib Lutfi, as atuações iluminadas de Leila Diniz, Othon Bastos ou Paulo José, o gênio montador de Eduardo Escorel, o colorido tropicalista de Macunaíma, o canto áspero de Sérgio Ricardo e a batida sensual da Bossa Nova.

Filho rebelde do Cinema Novo, o ciclo do Cinema Marginal ajudou a modernizar nossa cinematografia com um sopro de irreverência na forma e no conteúdo. Dessa safra, que se estendeu do fim dos anos 1960 até metade da década seguinte, estão aqui os seminais A margem, de Ozualdo Candeias, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, Bang-Bang e Blablabla, de Andrea Tonacci. E ainda Meteorango Kid – Herói intergaláctico, de André Luiz Oliveira, e Esta noite encarnarei no teu cadáver, um dos primeiros assombros de José Mojica Marins.

Não se pode deixar de mencionar a presença de filmes e diretores importantes do cinema paulista dos anos 1950 e 60, cuja atividade correu em paralelo ao modelo dominante do Cinema Novo. Aí se enquadram Roberto Santos, Luís Sérgio Person e Walter Hugo Khouri, criadores e mestres que ajudaram a manter a palheta da diversidade na produção da época.

Quem quiser ter uma ideia de como o cinema brasileiro se fez espaço de resistência contra a ditadura militar vai encontrar bons exemplos no acervo da Programadora. O DVD intitulado “Redemocratização: as greves de 1979” compila três curtas cruciais do período, assinados por João Batista de Andrade, Renato Tapajós e curta-metragistas oriundos da Corcina, cooperativa de curta-metragistas cariocas extremamente ativa na década de 1970. Nesse capítulo, sobressaem ainda o clássico Iracema, uma transa amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, e o documentário Os Doces Bárbaros, de Jom Tob Azulay, onde se veem os baianos contestando padrões de comportamento tanto da direita como da esquerda.

O fértil cinema dos anos 1970, nutrido nas inovações da década anterior e amparado pelo estado através da Embrafilme, comparece com títulos memoráveis. Entre eles, São Bernardo, de Leon Hirszman, Aleluia Gretchen, de Sylvio Back, Tudo bem, de Arnaldo Jabor, Coronel Delmiro Gouveia, de Geraldo Sarno, e A lira do delírio, de Walter Lima Jr.

Os primeiros anos da década de 1980 ainda se beneficiaram desse sopro de profissionalização e sucesso. É o que se pode ver em Eles não usam black-tie, de Hirszman, premiado em Veneza e mais uns tantos festivais internacionais, O homem que virou suco, de João Batista de Andrade, laureado em Moscou, Sargento Getúlio, de Hermano Penna, Bar Esperança, de Hugo Carvana, Nunca fomos tão felizes, de Murilo Salles, e A hora da estrela, de Suzana Amaral, que deu a Marcélia Cartaxo o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim.

Diretores como Chico Botelho, José Antonio Garcia, Guilherme de Almeida Prado, Ícaro Martins e Djalma Limongi Batista protagonizaram um momento especial do cinema paulista na década de 1980, marcado por uma forte elaboração estética da imagem e formas de construção narrativa pós-modernas. Pode-se verificar isso em filmes como Cidade oculta, O olho mágico do amor, O corpo, A dama do Cine Shangai e Brasa adormecida, todos presentes na coleção.

Quando o cinema brasileiro entrou em recesso forçado durante o governo Collor, quase todos os poucos longas-metragens que lograram chegar às telas podem ser vistos ou revistos nos DVDs da Programadora. Entre eles, Stelinha, de Miguel Faria Jr., Beijo 2348/72, de Walter Rogerio, Alma corsária, de Carlos Reichenbach, A saga do guerreiro alumioso, de Rosemberg Cariry, Sábado, de Ugo Giorgetti, e Carmen Miranda – Bananas is my business, de Helena Solberg. Já a Retomada pós-1995 pode ser claramente avaliada por obras de Walter Salles (Terra estrangeira), Lírio Ferreira e Paulo Caldas (Baile perfumado), Beto Brant (Os matadores), Walter Lima Jr. (A ostra e o vento), Domingos Oliveira (Amores), Ruy Guerra (Estorvo) e Helvécio Ratton (Amor & Cia.).

O mesmo nível de representação se estende aos anos 2000, quando a diversidade de temas e formatos se potencializa no cinema brasileiro, com o advento de uma grande safra de novos realizadores e a reinvenção de alguns veteranos. Encontramos, então, certos filmes que fizeram o clima da época, como Bicho de sete cabeças, de Laís Bodanzky, Durval Discos, de Anna Muylaert, Cronicamente inviável, de Sergio Bianchi, Madame Satã, de Karim Aïnouz. E ainda Houve uma vez dois verões, de Jorge Furtado, Quase dois irmãos, de Lúcia Murat, Eu me lembro, de Edgard Navarro, Cinema, aspirinas e urubus, de Marcelo Gomes, O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburger, e Mutum, de Sandra Kogut, apenas para citar alguns. Nesses DVDs estão contidas algumas das melhores e mais premiadas atuações do cinema brasileiro moderno. Lá estão Lázaro Ramos, Fernanda Montenegro, Rodrigo Santoro, João Miguel, Leandra Leal, Chico Diaz etc, em papéis que já se tornaram inesquecíveis.

Gêneros e formatos, diversos e complementares

Não é só na perspectiva histórica que se afirma a abrangência do catálogo da Programadora Brasil. Há também uma variedade consistente no que se refere a modalidades cinematográficas, gêneros, metragens e bitolas originais. Dos 825 títulos incluídos até meados de 2011, cerca de 250 são documentários, 226 são animações, pouco mais de 100 classificam-se como filmes experimentais e os demais 400 são obras de ficção.

Os documentários do acervo expressam bem uma permanência que antecede em muito a primavera recente. Os exemplos esparsos das décadas de 1920 a 1950 se multiplicam a partir dos anos 1960, refletindo o choque de realidade vivido pelo cinema brasileiro. O trânsito de cineastas importantes entre a ficção e o documentário – Glauber, Jabor, Joaquim Pedro e Antonio Carlos da Fontoura, entre outros – inicia uma tradição que se perpetua até hoje. Nesse âmbito, a coleção resgatou filmes que há muito não circulavam fora de cinematecas como o mitológico curta Marimbás, de Vladimir Herzog, Jornada Kamayurá, de Heinz Förthmann, o já citado Um dia na rampa, o glauberiano Amazonas, Amazonas e os ensaios documentais de Olney São Paulo sobre o teatro brasileiro.

Os maiores documentaristas do país têm obras de peso incluídas no catálogo. Basta citar Vladimir Carvalho (Conterrâneos velhos de guerra e A pedra da riqueza), Jorge Bodanzky (Iracema, uma transa amazônica e Terceiro milênio), Geraldo Sarno (com seis curtas), Silvio Tendler (os “docbusters” Os anos JK, uma trajetória política e Jango) e Eduardo Coutinho (Edifício Master), além do já mencionado João Batista de Andrade.

A década de 2000 assistiu a uma floração sem precedentes do documentário no Brasil, já enunciada na segunda metade dos anos 1990. É o que responde pela presença, no período, tanto de filmes assinados por documentaristas experientes como José Joffily (O chamado de Deus), Paulo Thiago (Poeta de sete faces), João Batista de Andrade (Vlado, 30 anos depois), Andrea Tonacci (Serras da desordem) e Helena Solberg (Palavra (En)cantada), quanto por trabalhos de diretores que despontavam para o longa, como Sérgio Machado (Onde a terra acaba), João Jardim (Janela da alma e Pro dia nascer feliz), Joel Zito Araújo (A negação do Brasil), Jorge Alfredo (Samba Riachão), Kiko Goifman (33), Paulo Sacramento (O prisioneiro da grade de ferro), Liliana Sulzbach (O cárcere e a rua), Maria Augusta Ramos (Justiça), Victor Lopes (Língua – Vidas em português) e Marília Rocha (Aboio). Some-se a isso uma profusão de curtas-metragens documentais que refletiram a opção maciça de jovens cineastas pela riqueza narrativa e a maior viabilidade econômica do cinema documental.

A duração de um filme não importa para a curadoria da Programadora Brasil quando se trata de mapear os momentos importantes da nossa cinematografia. Daí a extraordinária oferta de curtas-metragens, apresentados seja acompanhando um longa, seja em programas compostos por relações temáticas, históricas ou pelo interesse para determinadas parcelas de público. Há até mesmo uma interessantíssima coletânea de curtas filmados em um único “Plano-sequência”, ou seja, sem cortes. E outra com filmes realizados exclusiva ou prioritariamente com fotografias fixas. O próprio cinema brasileiro é tema de alguns desses programas, como “Em torno de Glauber” (com cinco curtas), “Memórias da Boca do Lixo” (quatro curtas sobre o famoso polo de produção do centro de São Paulo) e “Histórias do cinema brasileiro” (três programas totalizando 15 curtas).

Ao compor esses programas, a curadoria de curtas induz a uma visão mais articulada e profunda desses filmes, que normalmente levam vida isolada no fluxo de mostras e exibições na TV. Programas como “Discurso e intervenção”, “Perambulação: realismo nas ruas”, “Ventres livres”, “Universo popular e escape”, “Diferenças” e “Consumo e alienação” propõem relações conceituais entre filmes de épocas e procedências diferentes, assim potencializando seus significados. Obviamente, temas como música, futebol, diversidade sexual, adolescência e maioridade respondem por diversos programas e disponibilizam ao público muitos dos melhores curtas produzidos no país, sejam documentais, ficcionais ou experimentais. Ilha das flores, de Jorge Furtado, que muitos consideram o melhor curta já feito no Brasil, está no DVD apropriadamente intitulado “Clássicos e modernos”.

A animação ocupa, claro, outro lugar de destaque no acervo da Programadora. A oferta inclui, além de três longas recentes, dezenas de curtas disseminados em vários programas ou reunidos em DVDs específicos. As coletâneas de curtas animados se destinam, nomeadamente, a faixas distintas de idade, incluindo os quatro titilantes programas “Animações para adultos”. As animações infantis são campeãs de audiência nos pontos de exibição regulares da Programadora Brasil. Mas os personagens de carne e osso também fazem a alegria da garotada em programas identificados como “Curtas infantis” e “Curta criança”, este contemplando os filmes vencedores do edital homônimo promovido pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, em parceria com a Empresa Brasil de Comunicação, e destinado a estimular a produção de curtas para o público infantil.

Sotaques e paisagens

O caráter representativo deste catálogo se estende também ao aspecto regional. Apesar da natural predominância de filmes do Rio e de São Paulo – polos tradicionais da produção cinematográfica no Brasil –, nota-se o empenho da curadoria em mapear as cinematografias de outros estados. O cinema nordestino tem participação significativa, com produções da Bahia, Pernambuco, Ceará e Paraíba, principalmente. Além de longas historicamente importantes para os rumos do cinema brasileiro, vale ressaltar que esta seleção também espelha o dinamismo do curta-metragem no Nordeste das duas décadas passadas.

Minas Gerais não fica atrás, com um bom número de curtas relevantes e alguns longas de peso, como o raríssimo O homem do corpo fechado, de Schubert Magalhães. De Helvécio Ratton a Helvécio Marins, o cinema mineiro marca aqui alguns de seus pontos cardeais. O mesmo se pode dizer dos estados do sul. O cinema gaúcho se faz presente com animações de Otto Guerra, produções da Casa de Cinema de Porto Alegre e longas históricos que ecoam o passado da região, entre outros trabalhos. Do Paraná e de Santa Catarina vêm filmes realizados sobretudo na década passada. Outra representação forte é a do cinema brasiliense, com quase 30 filmes.

A Programadora Brasil não tem – quem poderia ter? – a ambição de esgotar tudo de bom que foi criado em cinema no país. Mesmo o trabalho de curadoria mais refinado costuma topar com dificuldades. Deficiências de preservação e perdas históricas deixam lacunas inevitáveis no levantamento de uma filmografia mais completa. Os acervos das cinematecas são vasculhados em busca de matrizes que possam servir à duplicação, em seguida a cuidados básicos de limpeza e eventual restauração. Mas nem todas essas buscas chegam a resgatar o objeto do desejo dos programadores. Resta, então, perseverar na construção de políticas públicas que garantam, cada vez melhor, a sobrevivência da nossa memória cinematográfica.

Numa época em que a dispersão e a indiferenciação banalizam o consumo de cultura, o olhar cuidadoso e a ação multiplicadora da Programadora Brasil estão corrigindo o foco sobre o cinema brasileiro. O passado e o futuro agradecem.