segunda-feira, 11 de março de 2013

PROAC- A lei da cultura de SP

Acho que mereço comemorar, afinal fui o criador dessa lei da cultura em SP, o PROAC em 2006, numa dura batalha envolvendo os movimentos culturais e TODOS os partidos, num concenso inédito na politica cultural de SP:
Para o ano de 2013, o Governo do Estado de São Paulo, através da Secretaria da Fazenda, definiu R$ 126 milhões de renúncia fiscal para apoio a projetos culturais. Com esse valor, atinge o teto estipulado na Lei nº 12.268, de 20 de fevereiro de 2006, que o institui: 0,2 % (dois décimos por cento) da parte estadual da arrecadação anual do ICMS relativa ao exercício de 2012.

sobressaltos

Acorde para um novo tempo. Volta e meia somos pressionados para esses saltos no escuro. Cada um, cada grupo, cada partido, cada tribo, tem sua própria ideia desse "novo tempo". Mas em geral é um sobressalto, nada mais do que isso. Políticos querem nos fazer crer que suas ações não são normais, mas revolucionárias; religiosos nos induzem a crer que finalmente tempo final chegará e precisamos nos pr...eparar para ele; artistas reinventam as artes a cada obra; filósofos gostam das lixeiras onde podem jogar seus antecessores. É preciso pensar em nosso cotidiano: o que diz nosso corpo, nossa mente, sobre o presente e de como tudo isso muda nossa vida e nossa expectativa para o futuro. Palavras saídas dessas bocas já não condizem nem com que seus autores fazem na vida real. É preciso por as idéias no lugar.
(Facebook 09\mar\2013)

quarta-feira, 6 de março de 2013

hqvirousuco, ainda


TRABALHO E CINEMA
Este é mais um CD-ROM de ANÁLISE CRÍTICA de filmes clássicos do Projeto TELA CRÍTICA - o cd-rom de análise crítica do filme "O homem que virou suco", de João Batista de Andrade. Escrevi um longo ensaio - cerca de 75 páginas - sobre este filme que será publicado em breve, no volume 4 do livro "Trabalho e Cinema". Diz a abertura do ensaio: "O filme “O homem que virou suco”, de João Batista de Andrade, de 1981, possui como tema central, as formas da precarização do trabalho nas condições do capitalismo brasileiro. Num primeiro momento, expõe, de modo realista, o cotidiano de miséria da classe operária pobre da metrópole paulistana expostos à precariedade salarial extrema no auge do “milagre brasileiro” (1968-1979). É um filme que trata das várias nuances da superexploração da força de trabalho que caracteriza o capitalismo brasileiro. Ao mesmo tempo, expõe a opressão e exploração capitalista que desefetiva o ser genérico do homem, isto é, enlouquece o homem-que-trabalha. Deste modo, o filme “O homem que virou suco” vincula superexploração da força de trabalho como característica ontogenética do capitalismo hipertardio brasileiro e adoecimento do trabalhador assalariado (o homem que virou suco), como um modo de desefetivação humano-genérica ou loucura do homem-que-trabalha".

quem procura acha ( na imprensa)

Em 2010:

São Paulo, terça-feira, 19 de janeiro de 2010


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Filme de 70 retrata chuva, camelô e lixão Mostra traz documentários que abordam problemas que ainda persistem na cidade


Superlotação em transporte coletivo e danos causados pelas chuvas são outros temas que também estarão nas telas da Cinemateca a partir de hoje

EVANDRO SPINELLI
DA REPORTAGEM LOCAL Problemas do transporte coletivo, ambulantes irregulares, catadores de lixo e danos causados pela chuva estão entre os temas da mostra que a Cinemateca Brasileira começa a exibir a partir de hoje.
São todos temas atuais abordados com profundidade pelo cineasta João Batista de Andrade e outros integrantes do movimento Cinema de Rua. O único detalhe é que os documentários em curta-metragem foram produzidos na década de 1970.
Os problemas são recorrentes. Em 1973, quando foi feito o filme "Ônibus", a cidade tinha 7.000 veículos e o metrô engatinhava. Hoje são quatro linhas de metrô, 15 mil ônibus e ainda há superlotação.
Em 1975, ano do filme "Restos", mais de cem pessoas viviam de recolher lixo no chamado lixão da Raposo Tavares. A cidade não tem mais lixão, mas os catadores de lixo continuam nas ruas.
Em 1976, quando foi rodado o filme "Ambulantes", a prefeitura não concedia licença de trabalho para os camelôs, que trabalhavam irregularmente. Hoje, a cena se repete.
Em 1976, ano do documentário "Buraco da Comadre", uma cratera de 160 metros de extensão e 4 de profundidade -que persistia há 20 anos na Vila Medeiros (zona norte)- era o símbolo dos problemas causados pelas chuvas. Mais ou menos como ocorre hoje no Jardim Pantanal (zona leste).
"É claro que os problemas são recorrentes. Isso ocorre por falta de planejamento e de acompanhamento desse plano. Plano não é uma coisa que você faz e está pronto. Plano é processo", disse o arquiteto e urbanista Paulo Bastos.

História
Nos anos 1970, João Batista de Andrade -prêmio Air France de diretor revelação por "Gamal. O Delírio do Sexo" (1969)- começou a fazer documentários para o programa "Hora da Notícia", da TV Cultura, criado pelos jornalistas Fernando Jordão e Vladimir Herzog.
Os documentários foram usados por partidos, associações de moradores e igrejas em debates clandestinos (o Brasil vivia o regime militar) e serviram de ponto de partida para o movimento Cinema de Rua.
Parte desses documentários foi restaurada pela Cinemateca, que os exibe agora pela primeira vez em conjunto, para o aniversário de 456 anos de São Paulo, comemorados na segunda. Também fazem parte da mostra filmes sobre a cidade desde a década de 1950.

domingo, 3 de março de 2013

o cérebro


28Dez2011    no Facebook

 

Passo o dia sem ideias, cabeça vazia. Uma pontinha amarela no alto da cabeça, espremo, será uma espinha? - a massa amarelada se espalha pelo teto de meu corpo, suja o piso que a faxineira acabara de limpar. Pego o rodo, junto tudo, massa escorregadia que enfio num saquinho de plástico do super-mercado. valerá alguma coisa tal porcaria?

Alertado aqui por amigos do FB, guardei o saquinho com a massa amarelada na geladeira. Para quem não leu o status anterior, eu achei que era espinha no alto do cocoruto e espremi. Agora a coisa está lá e de vez em quando escuto um gemido, sei lá, um grunhido queixoso. Talvez eu não devesse colocar meu cérebro na geladeira. Sem ele eu posso até voltar a fazer televisão, sei lá, ou voltar para a política, esse é o risco. Espero... ( ouvi um grito, é de lá...) –espero novas orientações

Pois bem, açodado por várias críticas e opiniões, retirei meu cérebro da geladeira. O cheiro não estava muito bom, não sei se vou poder aproveitar o resto de pizza que trouxe do restaurante há 10 ou 12 dias (falei que era para o cachorro). Andei com aquele pacote esquisito e mal cheiroso pelas ruas, não sabia onde ir, queria encontrar o pessoal do FB, - tem um lugar? - não achei, eu confesso que estou, ainda agora, meio perdido. Tocou meu celular, atendi, falavam em sueco, diziam que gostaram muito de meu texto, uma certa academia, eu disse, não, academia não, da última vez travei minha coluna levantando pesos. Mas, engraçado, eu me sinto tão bem agora, joguei o pacote no lixo reciclável...

Sim, amigo, quando eu fiz "O cego que gritava luz", "o homem que virou suco", "doramundo", "O país dos tenentes e outros 13 longas metragem, eu ainda estava com meu cérebro. Até hoje de manhã eu estava com ele, incomodava, você sabe como é, cheio de perguntas, inquieto, chato. Comparo com parentes, mas a gente precisa dele. Só tenho medo agora, descartando a política e a TV, de começar a gostar de sertanejo universitário. E de ficar dando beijinho na boca de cachorrinho. Nesse momento encho o chão de travesseiros e vou tentar uma cena do Soleil, não sei se vai dar certo.

texto novo s\ O país dos tenentes

O País dos Tenentes (João Batista de Andrade, 1987)

André Rocha Rodrigues*
Projetos ambiciosos e ousados costumam caminhar sobre a tênue linha que limita o genial e o ridículo, o sucesso e o fracasso. João Batista de Andrade foi ambicioso e ousado por caminhar sobre essa linha, mas obteve sucesso ao nos presentear com o seu genial “O País dos Tenentes”. Obra importante, entretanto, pouco mencionada do cinema brasileiro.
O filme é primoroso, cada detalhe é pensado, não possui cortes, cenas ou seqüências gratuitas. Com direção, argumento e roteiro de João Batista de Andrade, fotografia de Adrian Cooper, música, tanto bonita quanto bem utilizada, de Almeida Prado e direção de arte de Marcos Weinstock, o filme nos traz Paulo Autran (magnífico) no papel de um velho general da Reserva (General Gui), ex-revolucionário de juventude e, agora, relações públicas de uma multinacional em uma profunda crise de consciência e atormentado pelos fantasmas do passado e do presente.
O filme foi lançado em 1987 e ambientado no mesmo período, de transição política para democracia após anos de ditadura militar, por isso chamei a atenção para a ousadia do diretor. Em 1982 iniciou-se o movimento de diretas já no Brasil, o qual reivindicava o direito de eleições diretas para presidente, entretanto em 1985 o povo foi logrado por um colégio eleitoral e as eleições continuaram indiretas. Contudo, isso não arrefeceu a luta e as manifestações populares.
É em meio a manifestações populares que o filme se inicia. General Gui e seu bisneto André estão dentro de um Ford Galaxie que avança pelas ruas de São Paulo. O motorista dirige devagar. Atravessa o escuro de um túnel, entra numa rua coberta pela luz do sol, passa numa esquina onde um grupo de pessoas distribui panfletos e gritam palavras de ordem a favor de eleições diretas já. Dobra à direita, continua o seu caminho até a empresa Multinacional que lhe fará uma homenagem. Logo após, ao descer do carro, uma jornalista tenta (em vão) uma entrevista com o General, relembrando-o que ele fez parte de alguns dos principais movimentos políticos no Brasil e lhe pergunta se ele se lembra da história e se isso ainda é importante.
Por si, esse plano seqüência já nos diz muito sobre o filme. Além da beleza estética da seqüência, mostra-se o General nacionalista e patriota de outrora dentro de um dos símbolos do capitalismo estadunidense. Ele segue indiferente a população, receber uma homenagem de um alemão e prefere se calar. Aqui é mostrado o cerne do filme, a intenção de João Batista: em um momento de transição para democracia colocar os militares em crise de consciência, fazer com que eles revejam e repensem o que fizeram com o país. O diretor mostra um velho general em crise, impossibilitado de juntar as duas pontas de sua formação, os ideais da juventude e a degradação da velhice. Uma crise deflagrada a partir da homenagem que lhe é feita pela multinacional justamente no momento de abertura política, quando a população começa a ganhar as ruas exigindo democracia. A homenagem, que na verdade evidencia sua degradação, conflita com os anseios populares. Esse é o conflito exato entre o velho e o jovem Gui.
Paulo Autran como general Gui contempla sua imagem como revolucionário
A partir daí João Batista rememora brilhantemente e de forma não linear, através dos delírios e sonhos de Gui, um pouco da história do Brasil, com enfoque no movimento tenentista, o qual o general participou. O primeiro acontecimento evidenciado no filme foi a revolta dos 18 do Forte, revolta esta que e eclodiu no Forte de Copacabana em 1922. A crítica primordial dos tenentes era a oposição aos governantes atuais, liderados pelas poderosas oligarquias regionais que liderava a política republicana, e também as más condições do exercito bem como o rumo educacional que estava sendo imputado aos alunos militares. Um ensino basicamente militar, descontextualizado da diversidade da escola positivista que, segundo eles, afastava os militares das questões sociais e políticas, tratando apenas de formar militares profissionais. Fica evidente que o movimento teve um caráter elitista, pela ausência do povo, e foi justamente isto que frustrou alguns dirigentes do movimento, pois a revolta não conseguiu tirar de circulação da política dominante os velhos elementos da velha oligarquia. A frustração do General Gui é pelo fato dele ter participado do movimento e de ter tomado a decisão que o afastava da ideologia que deu origem à revolta. Pois não quis lutar ao lado dos que foram com Prestes, mas aderiu ao vitorioso Getúlio Vargas, incorporando-se ao Estado.
Gui não concorda com os prestistas e talvez julgue que aquele discurso fosse um discurso revolucionário importado – o da revolução pelo proletariado, uma vez que esse era uma minoria pouco significativa, e a transposição para os camponeses soava como uma importação política, sem qualquer fundamento nacional, qualquer embasamento real.
Em meio a sua crise Gui, rabugento, nega atender telefonemas e diz a empregada quando esta lhe há um telefonema para ele: “Diga que eu não estou. Não estou nunca. Não estou pra ninguém. E se insistirem diga que estou velho e egoísta e que agora eu só penso em mim. Se insistirem mais diga que eu morri.” (grifo meu) Ou seja, não quero mais me envolver com nada, porque quando me envolvi resultou em coisas catastróficas, agora só penso em mim.
A crise do militar adaptado pelo sistema em um periodo de transição
O filme nos mostra que em um movimento político (de massa ou não) as coisas fogem do controle ou do previsto pelo sujeito. Em uma cena magistral Gui vê seu muro desabar e a movimentação tomar conta da cena. As decisões tomadas podem desdobrar em realizações impensadas e demasiadamente equivocadas. General Gui ainda vivo, sente-se apodrecido, corrompido, muitas vezes com o corpo coberto de insetos. Ele se vê à beira da morte e se deixa envolver por sua memória, repassando o longo processo de apodrecimento, de corrupção, que consumiu sua própria história. João Batista não tem a intenção de vangloriar as lutas do passado, nem de cantar a vitória contra os militares. Está interessado na crise, na falta de perspectiva, no apodrecimento, justamente no momento da transição política.
Imagem do Filme "O país dos tenentes"
Ainda assim, deixa escapar um fio de esperança, se é que podemos pontuar assim. O menino André, bisneto de Gui que aparece desde a 1ª cena. Podemos ver nele a figura do futuro, da esperança. O menino no início observa curioso toda à estrutura da grande empresa multinacional, mas na casa do bisavô tem aulas de música e gosta de brincar com as crianças pobres que vão até ali, ou seja, o povo. Em um determinado momento o menino desaparece misteriosamente, a família se preocupa e se mobiliza para encontrá-lo, mas é nítida a preocupação (talvez maior) com os negócios.
Quando procuram Gui para falar sobre o bisneto ele diz: “Ele vai voltar. Eu sei que ele vai voltar”. Aqui podemos pensar que a esperança no futuro ficou um pouco anuviada durante o período militar e esses se preocupavam mais com outros negócios do que com o futuro do povo. Mas João Batista alimenta a esperança quando Gui diz que André vai voltar. E ainda mais, quando André reaparece (sem explicação) junto com o povo, pulando, correndo, brincando e pegando as coisas da mesa dos poderosos.
O filme opta pela reflexão e ao fazer isso evita as tentações e facilidades do rancor pessoal, ainda que arriscando sua própria sobrevivência como produto de indústria cultural.
Por isso, em O País dos Tenentes não há heróis nem vilões, para fruição de qualquer êxtase catártico. A figura dos militares é humanizada, mas não romanceada.
João Batista pergunta: Que país é este? Que general é este? O País dos Tenentes formula as perguntas e estimula – como poucos filmes têm feito – uma reflexão em torno delas. Quanto às respostas, elas são deixadas ao espectador. Esta é sua grandeza, que não passaria de respeitável abstração caso não estivesse ancorada sobre sólida qualidade cinematográfica.

*André Rocha Rodrigues é graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – UNESP Campus Araraquara. Tem experiência na área de Sociologia. Com ênfase em Sociologia da cultura. Pesquisa Indústria Cultural e Indústria fonográfica. Colabora esporadicamente com o site Pipoca e Nanquim (http://pipocaenanquim.com.br/) e escreve no blog http://rochaandre.wordpress.com/

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

êxtase

Aprendi cedo a nadar, isso me dava uma sensação imensa de liberdade. No começo era tão pouca a água, o córrego das Almas em minha terra natal. Depois, os riscos maiores, ribeirões e o traiçoeiro Rio Tijuco que levou para sua eternidade dois amigos e alguns conhecidos. Com a adolescência, ah essas eram águas muito pequenas! o mergulho exigia agora uma coragem infinita, nadar sem usar os braços, na infinitude da vida. Densidade alguma, proteção zero, garantia nenhuma. Era me largar e voar espaço afora, no mar de minhas dúvidas. Nunca mais saí desse espanto, misto de dor e de êxtase.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O PAÍS DOS TENENTES

CANAL CURTA: ENCERRANDO ESSE EPISÓDIO, já postei aqui meu apoio. E recebi mensagem de correção enviada pelo diretor Julio Worcman. Agradeço. Como já disse, tenho paixão por esse meu filme, "O país dos tenentes", feito dois anos após o fim da ditadura e retrata, numa visão histórica, essa passagem e os 60 anos dos militares na política, desde a revolta do forte de copacabana, em 1922. O filme revela de como a absorção pelo estado corrompeu os tenentes. E o velho general Gui (PauloAutran) é o último deles, assistindo, nos anos 80, às mudanças e a volta da democracia. Durante a ditadura (resultante do golpe de 64) Gui é contratado por uma multinacional como relações públicas, com o intuito de facilitar os trâmites junto ao Governo Militar. Agora se sente podre, tomado por bichos, revivendo sua trajetória desde 22. À beira da morte, em plena passagem para a democracia, recusa-se a fazer o último serviço à multinacional, mas é substituido por seu filho que usa seu nome. O filme foi precoce demais. Em depoimento a "O Estado" disse que o filme revelava o fim de um ciclo revolucionário, tomado pela corrupção material e das idéias. Como se vê, o filme de 1987 se antecipa à queda do Muro de Berlim e à queda reveladora do falso e corrupto socialismo no leste europeu, -e assim foi visto na Europa: por essa leitura fui convidado para um giro na Alemanha, por seis cidades, com exibição do filme e debates com universitários.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

VIVER


Com meu desassossego
Nem eu me acostumo
De minha janela mergulho no escuro
Pensando ali encontrar a luz
De dia cultivo estrelinhas
Na copa das árvores
(Alguem plantou essas árvores)
Com meu desassossego, quem se acostuma?
Tiro a roupa, sou menino
Mergulho no córrego simples
... De minha infância colorida
Queria ficar ali para sempre
Submerso em minhas loucuras
Com meu desassossego
Sei que me desacostumo
Os dias passam tão lentos
E os anos parecem pirâmides humanas
(chegarei um dia ao céu que desejei)
Grito lá de cima, "quem está aí, em baixo?"
E reconheço minha voz amanhecida
Tomada de esperanças
Com meu desassossego vivo
No descontentamento sonho e cultivo
Pensando nas mãos de índios, incas, negros
Calos que inoculam de fé todas as sementes
Vivo sim, com ele
Com meu desassossego é que vivo
Com ele durmo e com ele amanheço

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

olhos de galinha

OLHOS DE GALINHA
Não se pode andar com olhos de galinha
Pelas ruas de nossas cidades
Nada de fugir, nada de buscar outros lados
Dos desencontros que vemos e que tememos
É preciso coragem para encarar, dois olhos bem abertos
Toda a rispidez com que nos respondem aos cumprimentos
Ah, pois a vida também escoa por bueiros entupidos
E pouco importa nosso passado!
Às vezes ergo os olhos, juntos, juntos, ...em busca de luz
Já que tantos absurdos se construíram feito muralhas
A impedir o sol e o entendimento
Do alto me atiro, feito pássaro enlouquecido
Faço rasantes sobre mares poluídos de promessas
E choro por tantos anos perdidos, minha juventude
Depois imagino as ruas como rios limpos
Faço parte da alegre piracema de tantos sonhos
Rio, gargalho, grito, sou palhaço dessas bobagens todas
Que ainda encantam as multidões
Há no entanto, cantos escuros dessa festa
Males que já não se escondem como antes
E que ostentam suas chagas para nosso olhar incauto
Nada de olhos de galinha! Grito a mim mesmo
E tenho sempre que rir de tanta ingenuidade ferida
Não, não se pode mesmo andar pelas ruas de meu tempo
Com olhos fugidios e díspares da galinha
Rejuvenesço nessa fúria de espanto e esperança
Já que o desespero é como o prato de mentiras
E jamais mata nossa fome
Ah cidade, pátria, escapa-me o seu sentido
Empacotado na bandeira dos desencontros!                                        

                          João Batista de Andrade 20\fev\2013

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

liberdade

Pessoas que prendem pássaros são livres. Exploradores são livres. Trabalhadores são livres para serem explorados. Mulheres são livres para serem violentadas. Muitas dessas pessoas precisam humilhar outras pessoas para manter elevada sua própria auto-estima. E muitos deles gostam de aprisionar algum ser vivente e assim se vingar das restrições humanas que ainda limitam seus poderes e violência.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Pássaro no asfalto e final de meu romance

Hoje é um dia de glória: salvei um pássaro, logo pela manhã. Saí de meu prédio para tomar um café no bar, vi aquele pequeno passarinho no meio da asfalto. Era um desses periquitos chamados "australianos", tenho uma pena danada, nascem em gaiolas, longe da liberdade que a natureza lhes prometeu. Pois no meio do caminho tinha o Homem. O bichinho, bobo, inexperiente, assustado. Fui para a rua, apesar... dos carros, uma moto quase matou o pássaro. Fui chegando devagar, levei a mão até ele e ele agarrou-se ao meu dedo. "É de um morador do prédio em frente", me disseram os policiais do Posto Policial. Fiquei sem saber o que fazer. Entregar o bichinho para seu "dono"? - Eu não consegui. Fiquei andando com ele sem saber como agir e ele mesmo agiu: voou para a praça em frente ao meu prédio, com muitas árvores. Boa sorte para ele, sei que vai ser difícil sobreviver. Mas ele tentará.
 
 
Meus amigos. Por que me emocionei tanto com a história do pássaro que tirei do asfalto. É que isso coincide, de forma espantosa, com o novo final de meu romance que revisei ontem para enviar para a editora. Isto é, escrevi isso no romance, ONTEM, o pássaro que, ao voar, exibia sua liberdade aos olhos do persnonagem principal. E HOJE, tão cedo, vivi essa situação, o pássaro que tirei do asfalto e que voa para sua liberdade, mesmo que problemática e difícil.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Poema lido por Abujamra

Poema meu, escrito de improviso no Facebook, é interpretado pelo grande Abujamra ao final do programa "Provocações" do inicio de fevereiro\2013. Uma honra para esse poetinha envergonhado e quase clandestino.
Vejam em:  http://tvcultura.cmais.com.br/provocacoes/poemas-e-textos/pgm-602-a-coisa-segue-05-02-2013-1

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Memórias de meu tempo na TV Cultura

Republicando

Memórias de um combatente das imagens



Uma filmagem de ação policial: Em 1972, estávamos começando nosso "Hora da Notícia" na TV Cultura (com Vladimir Herzog, Fernando Jordão, Fernando Morais e outros bravos amigos). O "rádio escuta" (fica escutando notícias para a pauta) me disse que haveria uma "Operação tira da cama" naquele dia. Eu já havia visto: um horror facista: policiais armados entravam nas favelas à noite, com holofotes, cães, arrebentavam as portas dos barracos, tiravam todo mundo de lá, pedindo documentos. Onde estavam os cinegrafistas filmando: entrando junto com a polícia.
Então eu chamei um cinegrafista que já havia participado dessa ação e disse: vai lá e filma do jeito que você sempre fez. Ele foi, filmou tudo ao lado da polícia. Eu fui com minha equipe no dia seguinte de manhã e passei a ouvir os moradores, os "invadidos". Eram relatos impressionantes inclusive de crianças, o medo das armas, dos cães, os holofotes nos olhos... Pois esses depoimentos, na montagem, cobriram as cenas de violência. Em 1972, com Médici no poder, ver isso na TV nos deixava arrepiados. Essa postura desenhava o que começávamos a elaborar, uma espécie de cartilha de oposição étuica e estética à ditadura: considerar que a autoridade na informação não era a autoridade institucional, mas aqueles que vivem a situação. Essa visão marcou nosso trabalho, todos os meus filmes, desde 1972 até a intervenção no programa, em 1974, quando saimos todos, expulsos da TV. Tenho muito orgulho do que fiz.

sábado, 12 de janeiro de 2013

delirios

sabadão com chuva. Quieto, a imaginação ganha espaços que o corpo não pode. Cochilo diante da TV desligada, meu tio grita com as pobres vacas atoladas na lama do quintal. Pouco, muito pouco leite, ele reclama. As vacas estão estranhas, juntam-se no canto do velho curral e nos encaram. Ficam lá, paradas. Um grande gavião pousa no chifre da Chorona, a melhor de leite e também a de maior chifre. O gavião é que comanda!- Grita para meu tio, ameaçador. Meu tio grita com ele, era só o que faltava. Então não falta mais nada, grita o Gavião. Eu sei quem é você, grita meu tio. Sim, é o filho do maldito Capitão, oficial reformado do exército, vizinho que andou tomando terras de meu tio. E é ele mesmo, o Goiaba, rapaz bobo. O que você quer? - queria era minha prima que, da janela, lhe manda beijos.